No Portocel, em Aracruz, no norte do Espírito Santo, parte do transporte de celulose dentro do terminal já é feita por caminhões conduzidos por computadores. Desenvolvida em parceria com a Lume Robotics e a VIX Logística, a solução leva a automação para uma tarefa concreta: movimentar carga entre armazéns e cais, em vias compartilhadas com outros veículos da operação.
O trabalho ocupa um trecho específico da cadeia logística. Os fardos precisam sair da armazenagem e chegar à área de embarque. É nesse deslocamento interno que o sistema assume a condução do caminhão. O alcance documentado do projeto permanece dentro do porto.
O anúncio de entrada em operação foi feito em janeiro de 2025. Em apresentações registradas pelo CDMEC durante a MecShow 2026, o projeto voltou a aparecer como exemplo de aplicação industrial da direção autônoma brasileira. Os relatos também mostram que a transição para a operação sem condutor exige distinguir veículos, etapas de validação e formas de supervisão.

O computador assume os comandos de um caminhão convencional
A Lume trabalha com a conversão de veículos existentes. Na apresentação de seu cofundador e CEO, Rânik Guidolini, o kit foi descrito como um conjunto de sensores, software e atuadores capazes de comandar volante, acelerador, freio, câmbio e setas. O caminhão mantém a função de transportar carga; a tomada de decisões de condução passa para o sistema embarcado.
Na arquitetura descrita pela Lume, mapas da área e leituras dos sensores permitem localizar o caminhão, identificar obstáculos e planejar o movimento. A plataforma combina câmeras, Light Detection and Ranging: Sensor que mede distâncias usando pulsos de luz para construir uma leitura tridimensional do ambiente. e informações de localização e deslocamento. A configuração completa de sensores de cada veículo do Portocel não foi detalhada nos registros consultados.
O mapa oferece a referência do percurso; os sensores acompanham o que muda ao redor. O computador transforma essas informações em comandos para os atuadores. Entre as respostas descritas pelo fornecedor estão parar diante de um obstáculo e concluir a chegada ao destino.

A central organiza a operação
A autonomia também muda o trabalho de quem acompanha o transporte. Na plataforma da Lume, a central de operações permite atribuir missões aos veículos e receber informações de posição, velocidade, estado do sistema, alertas e imagens. O operador define a demanda e acompanha sua execução; o computador embarcado realiza as decisões de condução descritas pelo fornecedor.
É nessa mudança de função que o Portocel concentra parte do argumento de segurança. Segundo o relato da apresentação de Raul Viana Grossi, do terminal, a proposta é deslocar o operador da área de circulação para a supervisão do sistema. O ambiente reúne caminhões, ônibus e empilhadeiras. A organização humana do fluxo continua integrando a operação.

O que os relatos de 2025 e 2026 permitem afirmar
No comunicado de 27 de janeiro de 2025, o Portocel informou que um caminhão estava entrando em operação numa rota interna homologada e que um segundo se encontrava em operação assistida. A validação anterior havia durado 12 meses, com quase 4.500 quilômetros e mais de 400 horas de movimentação, acompanhada por um condutor na cabine. Os testes incluíram transporte com carga.
Em setembro de 2026, o registro da apresentação de Guidolini citou dois caminhões no transporte de fardos de celulose no Portocel. Já o relato da apresentação do terminal, publicado em 8 de setembro, descreveu o projeto como em conclusão da fase assistida.
Os registros confirmam a continuidade do projeto, mas deixam uma lacuna operacional: não identificam quais caminhões, missões ou trechos já dispensam uma pessoa na cabine. Também não esclarecem se a fase assistida mencionada em 2026 corresponde ao segundo veículo ou a uma ampliação do sistema. Assim, os números de validação de 2025 precisam ser lidos como experiência acumulada com acompanhamento humano.
A autonomia tem uma área de atuação
O anúncio institucional divulgado por Portocel e Lume apresentou o caminhão como Nível 4. Na taxonomia da Society of Automotive Engineers: Entidade que define os níveis de automação de direção, de 0 a 5., esse patamar descreve condução automatizada sob condições definidas, sem depender de uma pessoa para mitigar o risco. O domínio operacional estabelece onde e em quais condições a função foi projetada para atuar: percurso, infraestrutura, tráfego e condições ambientais fazem parte dessa delimitação.
A comparação ajuda a entender a distância para o Advanced Driver Assistance Systems: Termo geral para os sistemas avançados de assistência ao motorista. Nível 2 de um automóvel: nesse nível, o motorista precisa supervisionar continuamente as assistências e intervir quando necessário. Uma central de gestão de frota pode acompanhar veículos autônomos, mas a responsabilidade de condução atribuída ao sistema é o que distingue as categorias. A designação divulgada pela empresa, isoladamente, não comprova a maturidade de cada etapa do projeto.
No Portocel, o escopo descrito é o transporte nas vias internas. A expressão “rota homologada”, usada no comunicado do terminal, se refere à rota anunciada para essa operação. As fontes consultadas não apresentam uma autorização para esses caminhões circularem sem condutor nas ruas ou rodovias de acesso ao porto.
A segurança precisa abranger quem está fora da cabine
Em 5 de fevereiro de 2025, o Ministério Público do Trabalho no Espírito Santo informou a abertura de uma investigação sobre segurança e legislação na operação. O órgão chamou atenção para possíveis falhas em sensores e algoritmos e para a resposta a situações excepcionais, como incêndios, vazamentos e alagamentos.
Segundo o MPT, o terminal deve avaliar os riscos, informar os trabalhadores sobre as medidas preventivas e adequar a organização do tráfego, observando as normas regulamentadoras aplicáveis. A notícia registra a abertura da apuração, sem apresentar uma conclusão sobre irregularidades. Não foi localizado um desfecho público nas fontes consultadas para esta reportagem.
Para avaliar o próximo avanço no Portocel, os indicadores decisivos serão a quantidade de viagens efetivamente realizadas sem condutor, as intervenções necessárias e a segurança da convivência com trabalhadores e outros veículos.






