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há 27 min

O elétrico que o brasileiro quer comprar, mas não consegue: por que falta ORA 5?

O primeiro lote previsto para um mês acabou em 24 horas. Meses depois, ainda é muito difícil encontrar uma unidade para compra por aqui, enquanto há unidades à pronta entrega em outros mercados.

GWM ORA 5 da versão brasileira em movimento
Foto: Divulgação / GWM Brasil · Divulgação

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Você passou algumas semanas olhando fichas técnicas, recursos tecnológicos no Radar Adas, e finalmente decidiu conhecer o GWM ORA 5. O preço está na casa dos R$ 164 mil e, antes de gastar esse dinheiro, a ideia parece elementar: sentar no carro, examinar o acabamento, fazer um test-drive e, se gostar, fechar negócio.

GWM ORA 5 da versão brasileira em movimento
Foto: Divulgação / GWM Brasil · Divulgação
O ORA 5 chegou ao Brasil por R$ 159 mil e encontrou uma procura muito superior à previsão inicial da GWM. Divulgação / GWM Brasil

Há consumidores que não conseguem chegar nem à segunda etapa. Em julho e agosto, interessados relataram ter procurado concessionárias da marca sem encontrar uma unidade disponível para exposição ou test-drive. O site da GWM continua oferecendo o agendamento do teste, mas a existência do formulário não garante que haja um veículo físico disponível na loja escolhida.

Já a compra é quase impossível. Depois que os primeiros lotes acabaram, as reservas passaram a depender das pequenas janelas de estoque liberadas pela fabricante no Mercado Livre. Em uma apuração independente do Diário Automotivo que monitorou a disponibilidade pública a cada dois minutos, determinadas unidades apareceram e desapareceram em questão de minutos. Para uma das configurações acompanhadas, foram 35 dias e mais de 19 mil verificações sem que uma única unidade aparecesse disponível pelo canal monitorado.

Mesmo para quem consegue reservar, pagando R$ 9 mil de sinal, a espera continua. O segundo lote oficial foi anunciado com prazo de até 110 dias, e há compradores que passaram semanas ou meses sem número de chassi ou localização individualizada do veículo. No outro extremo surgiram carros praticamente novos à pronta entrega no mercado paralelo: reportagens encontraram ágio de cerca de R$ 20 mil, enquanto outro levantamento localizou anúncios até R$ 32,1 mil acima da tabela.

Um mês de estoque consumido em 24 horas

A primeira parte da explicação está documentada pela própria GWM. Quando as vendas foram abertas, em 24 de junho, a fabricante tinha pouco mais de 2.000 unidades no lote inicial e esperava que o volume atendesse aproximadamente um mês de demanda. Todo o estoque foi reservado em 24 horas.

A resposta foi um lote adicional de 1.000 carros, desta vez acompanhado da previsão de até 110 dias para entrega. A GWM havia subestimado de maneira significativa a procura brasileira, mas isso explica principalmente o choque inicial. A questão mais interessante é por que, meses depois de conhecer o tamanho dessa demanda, a disponibilidade continua tão apertada.

O mercado também se movimentou muito rápido. Em agosto, o Brasil emplacou 27.166 veículos 100% elétricos, recorde mensal e avanço de 256% sobre agosto de 2025. Um planejamento de importação feito poucos meses antes pode, portanto, chegar ao mercado já defasado.

O EX2 mostra que procura alta não explica tudo

Geely EX2 verde em imagem de divulgação da versão brasileira
Foto: Divulgação / Geely Auto Brasil · Divulgação
O Geely EX2 também encontrou forte procura, mas mantém abastecimento mais contínuo em parte da rede. Divulgação / Geely Auto Brasil

O Geely EX2 oferece um contraponto útil. Também vende em grande volume e algumas configurações têm fila, mas há concessionárias com o EX2 Pro à pronta entrega enquanto o Max registra espera de 60 a 90 dias. A própria Geely antecipou a produção brasileira do modelo depois do sucesso comercial. O contraste sugere que uma demanda elevada pode ser administrada com graus muito diferentes de disponibilidade.

Por que tanta gente quer um ORA 5?

Parte da resposta está no produto. Por R$ 163.990, o ORA 5 entrega motor elétrico de 204 cv, bateria de 58,3 kWh, autonomia de 349 km pelo , recarga de até 120 kW, de até 6 kW, teto panorâmico, bancos dianteiros elétricos e ventilados, multimídia de 14,6 polegadas e atualizações remotas.

Interior do GWM ORA 5 brasileiro com volante, painel digital e central multimídia
Foto: Divulgação / GWM Brasil · Divulgação
O conteúdo tecnológico ajuda a explicar o interesse pelo ORA 5, que combina conectividade e um pacote amplo de assistência à condução. Divulgação / GWM Brasil

Pacote

O pacote também chama atenção nessa faixa de preço. A versão brasileira combina com Stop & Go e centralização contínua em faixa, além de para veículos, pedestres e ciclistas, assistência emergencial de permanência em faixa, monitoramento de ponto cego, alerta de abertura de portas e alerta e frenagem para tráfego cruzado dianteiro e traseiro.

No Radar do Self Drive Brasil, são 18 dos 40 recursos monitorados presentes ou parcialmente presentes, com classificação Nível 2.0: o veículo controla longitudinal e lateralmente a condução. Uma ausência importante entre os recursos é que o ORA 5 brasileiro não tem monitoramento direto do condutor por câmera, enquanto a especificação de outros mercados o inclui. Para um carro capaz de acelerar, frear e centralizar-se continuamente na faixa, o seria uma camada adicional importante de supervisão.

O mesmo carro está à pronta entrega na Austrália

O contraste internacional torna a falta brasileira mais difícil de atribuir simplesmente à capacidade da fábrica. A Nova Zelândia também viu os primeiros carregamentos serem rapidamente absorvidos, mas a situação australiana é bem diferente. Em setembro, concessionárias locais anunciavam ORA 5 novos em estoque, alguns com poucos quilômetros rodados e mensagens explícitas de entrega imediata.

Vários GWM ORA 5 alinhados após desembarque em porto australiano
Foto: Divulgação / GWM Australia · Divulgação
ORA 5 desembarcados na Austrália. A GWM abasteceu a rede local para vendas e test-drives, e há concessionárias australianas anunciando unidades para entrega imediata. Divulgação / GWM Australia

Na China, o cenário também é de oferta: concessionárias anunciam diferentes versões elétricas com descontos. As configurações não são idênticas entre os países, mas os sinais disponíveis não apontam para uma escassez mundial do ORA 5.

E então surge uma pergunta central nesta história: quantos carros a GWM decidiu destinar ao Brasil?

O gargalo está na fábrica ou na alocação?

Um automóvel importado começa sua viagem muito antes de um brasileiro clicar no botão de reserva. É preciso definir quantas unidades serão destinadas ao país, encaixá-las no programa de produção, escolher versões e cores, transportar os carros aos portos chineses, reservar espaço marítimo, cruzar o oceano, realizar desembaraço e nacionalização no Brasil e, finalmente, distribuir os veículos pela rede.

Quando um estoque dimensionado para um mês desaparece em um dia, toda essa programação precisa ser refeita. A própria GWM já citou importação, logística e alocação ao responder compradores que aguardavam carros sem chassi definido. O que a fabricante ainda não tornou público é qual dessas etapas limita hoje a capacidade de reposição.

Há produção disponível na China? A matriz consegue redirecionar rapidamente carros previstos para outros mercados? Quantas unidades mensais foram efetivamente alocadas ao Brasil depois das primeiras 2.000? E por que a correção dessa previsão vem levando tantos meses?

Sem esses números, afirmar que a GWM deliberadamente restringe o Brasil iria além da evidência. A diferença entre a escassez daqui e o estoque disponível em outros países, porém, torna a alocação internacional uma hipótese importante para a investigação.

Falta navio — ou falta prioridade no navio?

A logística marítima oferece outra linha de investigação. O crescimento das exportações chinesas elevou a procura por navios Ro-Ro, embarcações especializadas nas quais os automóveis entram e saem rodando por grandes rampas. A pressão sobre esse modal é suficientemente real para que outros fabricantes tenham buscado alternativas: a Leapmotor passou a importar parte de seus veículos ao Brasil em estruturas flat rack, que permitem utilizar outros tipos de navio.

A GWM, porém, não atribuiu publicamente os prazos do ORA 5 à falta de car carriers. Seria importante saber com que frequência a empresa embarca veículos da China para o Brasil, quanto espaço consegue contratar, qual é o intervalo entre a produção e o embarque e se houve dificuldade para ampliar essa capacidade depois do estouro das reservas.

Há ainda outra pergunta: mesmo havendo espaço disponível, o Brasil recebe prioridade suficiente dentro da distribuição global?

Quanto a GWM ganha vendendo um ORA 5 no Brasil?

Essa pergunta leva a reportagem da logística para a economia. O ORA 5 estreou por R$ 159 mil e hoje custa R$ 163.990. Desde julho, veículos eletrificados montados importados passaram a recolher 35% de Imposto de Importação.

A tarifa cheia entrou em vigor depois da corrida inicial de junho e, portanto, não explica o esgotamento do primeiro lote. Ela pode, no entanto, alterar a conta das remessas seguintes. Um elétrico com bateria de 58,3 kWh, 204 cv e esse nível de equipamentos vendido por cerca de R$ 164 mil precisa absorver imposto, frete, nacionalização, margem da rede e demais custos comerciais.

A GWM não divulga a margem do ORA 5 no Brasil nem uma comparação de rentabilidade entre países. Não há base pública para afirmar que o carro seja vendido com prejuízo ou que funcione deliberadamente como um loss leader. A própria fabricante, porém, lançou o modelo como sua porta de entrada no segmento de SUVs compactos, deixando claro que ele também cumpre uma função estratégica para conquistar novos clientes.

Vale então colocar a questão diretamente: o preço agressivo que tornou o ORA 5 tão desejado também torna menos atraente aumentar rapidamente o volume importado? Se uma unidade destinada a outro mercado gerar retorno superior, como a matriz decide para onde mandar o próximo carro produzido?

Sem acesso aos custos e margens internas da GWM, essas perguntas permanecem abertas. A diferença entre preços, impostos e disponibilidade nos vários mercados justifica fazê-las.

O ágio colocou um preço na escassez

O mercado paralelo oferece um sinal particularmente revelador. Quando um carro tabelado perto de R$ 164 mil passa a aparecer praticamente zero-quilômetro por R$ 180 mil, R$ 190 mil ou mais, a entrega imediata adquiriu valor próprio.

Esse ágio não explica por que faltam carros, mas mostra que o equilíbrio entre preço oficial e quantidade disponível se rompeu em determinados momentos. Há compradores dispostos a pagar dezenas de milhares de reais para eliminar a fila.

O consumidor respondeu. Falta a resposta da GWM

A fabricante já conhece a dimensão do erro inicial: colocou no mercado um volume previsto para aproximadamente um mês e consumiu o lote em 24 horas. Três meses depois, o que ainda falta é uma explicação mais detalhada sobre por que a correção desse descompasso permanece tão lenta.

É capacidade de produção? Alocação entre países? Espaço em navios? Tempo de nacionalização? Capacidade da rede? Margem comprimida pelo imposto? Uma combinação de todos esses fatores?

Enquanto essas respostas não aparecem, o contraste permanece desconfortável. No Brasil há consumidores que não encontram o carro nem para test-drive, disputam pequenas janelas de reserva e aceitam esperar mais de três meses por uma unidade. Na Austrália há concessionárias anunciando o ORA 5 novo, em estoque, para entrega imediata.

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Notícias da redação Self Drive Brasil

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